Robôs nas passarelas expõem novos dilemas para a indústria da moda
Robôs têm se tornado presenças cada vez mais frequentes nos desfiles de moda. Embora a tecnologia represente uma inovação que beneficia o chão de fábrica e acompanhe a evolução de outros setores, a presença de máquinas no lugar de pessoas nas passarelas acende um alerta. Afinal, existe a necessidade de substituir alguém real, de carne e osso, por uma máquina que pode ser configurada de acordo com os padrões desejados? O que essa escolha revela sobre os ideais de beleza cultivados pela indústria? E, diante da onda de críticas aos influenciadores que passaram a ocupar o espaço de modelos nas passarelas, por que os robôs não provocam a mesma resistência?
Avanço das big techs
Realizado anualmente em diferentes cidades, o desfile Vogue World, criado pela revista norte-americana Vogue, escolheu Milão como palco para sua edição recente. Na passarela, contudo, o protagonismo não foi exclusivo das roupas ou das celebridades que desfilaram, mas sim dos robôs. As máquinas, mesmo sem vestimentas, arrancaram reações contrastantes de grandes nomes da moda.
De um lado, Donatella Versace, Domenico Dolce e Stefano Gabbana ofereceram sorrisos e aplausos, do outro Alessandro Michele e Miuccia Prada demonstraram clara apatia. O contraste de reações escancara a dúvida: o espetáculo robótico comunica, de fato, algo relevante ou é apenas uma ferramenta de atração de cliques?
discussão ganha profundidade ao observar os bastidores econômicos do desfile. O evento contou com o patrocínio da Meta Glasses, tecnologia que vem acumulando severas críticas quanto à facilitação da invasão de privacidade e à coleta ostensiva de dados em espaços públicos.
Nesse sentido, a moda parece flertar perigosamente com a desumanização. A aliança entre o glamour do Vogue World e o poder econômico das big techs evidencia como a indústria tem cedido espaço para a validação de tecnologias controversas.
Corpos configuráveis
Historicamente, a indústria da moda impôs padrões de beleza rígidos e, muitas vezes, inalcançáveis — a exemplo da magreza extrema, que voltou a ganhar força nos últimos anos. Nesse contexto, o robô pode representar o ápice desse controle: uma figura sem imperfeições, sem oscilações de peso, sem envelhecimento e completamente customizável.
Dupla medida
Nas semanas de moda ao redor do mundo, a presença de influenciadores na passarela causou revolta porque eles disputavam o mesmo espaço de trabalho com modelos profissionais — tidos como uma ameaça direta à categoria e ao esforço de anos de carreira por alguém que apenas tinha “seguidores”.
Contudo, as máquinas não enfrentaram resistência entre profissionais do mercado. O robô ainda é visto como uma obra de arte performática ou uma ferramenta de marketing pontual, e não como uma ameaça trabalhista real e iminente.
